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terça-feira, 27 de março de 2012

Um Defunto-Autor (de Hédimo Jales, o Capitão Caverna)

Auto-retrato

Morri. Eram aproximadamente dezessete horas. As pessoas que - em vida – diziam que me amavam faziam aquelas cenas que todos fazem em torno de um cadáver: “Meu Deus, por quê? Não é justo! Na flor da idade! Jesus, tenha piedade! Senhor, dê-lhe o repouso eterno! Meu pai onipotente, reserve o melhor lugar para esta alma! Vá, irmão, descanse em paz!”.
Mas foi exatamente aí que começou o meu desespero. Imaginem vocês, pobres e desgraçados mortais, que somente a partir desse momento é que verdadeiramente meu sofrimento teve início.
Como primeira atitude, puseram-me naquela tradicional vestimenta pavorosa - aparentemente guardada para esse fim - que mete medo até nos incrédulos. Depois de devidamente “alinhado”, mãos postas sobre o peito, dedos parelhos, pés invariavelmente unidos, depositaram todo o conjunto em uma urna – segundo eles apropriada – e passaram, cada um a seu modo, a me observar.
A passagem do tempo trouxe aos “amigos” o cansaço e pouco a pouco fui me sentindo sozinho, sozinho,... Sim, eles tinham seus compromissos familiares, pessoais,... O frio da noite ia-se misturando ao calor produzido por algumas velas que, acesas, me cercavam e a minha sala era agora dividida - certa hora - apenas com aquele infeliz que soluçava e vez por outra lacrimejava e engolia uma dose a mais de cachaça, como dizendo estar “bebendo o defunto”.
Assim se passou minha última – ou primeira? - noite. Vejam só que valores temos e o que verdadeiramente somos... Enfim, chegam os primeiros raios de sol e com eles retornam alguns “amigos” e vários curiosos todos apenas preocupados com o horário do enterro, pois a vida continuaria para a humanidade. Uns passam em torno de mim, acariciam minhas mãos, meu rosto, espantam uma mosca que insistentemente pousa, fazem – mecanicamente - o sinal da cruz; outros sentem a ameaça de uma lágrima, mas evitam-na e continuam o desfile em torno do ataúde.
Na hora da encomendação, um pouco de silêncio. As palavras “mágicas” ditas pelo “Pastor dos rebanhos humanos” levaram a todos um aparente conforto. Mas para quebrar aquele instante de prazer, atiraram em mim, em minha cara, nos meus olhos, no nariz, na boca,... várias porções de água “abençoada” que, pelo menos, aliviou um pouco a quentura que me perturbava.
É chegada a hora de lacrar o caixão. Não sei de quem partiu a ordem, mas alguém a executou. Ninguém me pediu licença e eu nada pude fazer para evitar tamanha estupidez. O fato é que já me sentia incômodo naquela miserável posição e naquele fatídico ambiente e o pior é que a partir daquele instante minha tortura só se multiplicava. Eu sabia que estava gritando e não me ouviam. Eu fiz toda a força de que um ser humano imaginou ser capaz para impedir que pusessem aquela tampa e não houve a produção de qualquer efeito em meu benefício. Eu ouvi claramente quando alguém lá fora falou “Está seguro”.
Miseráveis, como podem fazer isso comigo?
Agora a agonia, o calor intenso, a prisão. Mesmo sem algemas, fico imóvel, não posso mexer um só dedo; mas sinto que esperneio, grito e ninguém me dá o mínimo de atenção. Uma vez cumpridos todos os rituais, seguiu-se a marcha fúnebre em direção ao “campo santo”. O calor mais e mais me atormentava e meu corpo já mostrava sinais de inchaço, cheiro desagradável e o desespero em mim só crescia como que prevendo a próxima barbárie.
Não errei! Vi quando se utilizaram de cordas para fazerem descer meu corpo envolto naquela urna funerária. Aí, sim, minha aflição foi extrema. Afinal, meu clamor ultrapassou todos os limites humanos e, em vez de uma pausa, de um instante de atenção, presentearam-me com terra,... terra,... terra,... até que não suportando mais o peso de tudo aquilo, o mormaço e o abafadiço que somente eu sou capaz de lhes testemunhar, relaxei e me entreguei. Não havia mais como lutar.
Lá de baixo, percebi que todos um a um se iam afastando. Vi também que a paz tão desejada pelos que ocupam lugar no espaço da vida terrena finalmente estava sendo por mim conquistada. Que glória!
O dia já se fora e eu ali me encontrava na mais amarga solidão, na triste escuridão e no mais absoluto desprezo. Curioso é reconhecer que tudo o que me fizeram, foi feito como prova de amor e como circunstância natural de uma existência material.
Os dois ou três dias que se sucederam só produziram em meu corpo deformações e podridão a ponto de me conscientizarem de que nada sou. Sim, nada sou porque, quando vivo, nada fui; apenas possuí e administrei algumas conquistas, e vivi quando experimentei inesquecíveis prazeres mundanos – esta a única riqueza que jamais de mim será retirada.
Não saberia hoje avaliar quando tempo faz que os meus “amigos” me depositaram aqui, afinal não sei mais o que é dia, o que é noite, prazer, ódio, rancor, alegria, tristeza,...
Estou morto e enterrado não vejo ao meu redor aqueles com quem gastava meus trocados, a quem abraçava e proclamava aos quatro cantos taxando-os como amigos; neste momento, sou carne podre, sou lama humana,... Voltei ao lugar de onde um dia vim: ao nada. Não poderia jamais renegar a companhia dos únicos e verdadeiros amigos que a natureza me consagrou: os vermes, os tapurus,... aqueles responsáveis por consumirem a putrefação existencial e irmanarem-se a cada mortal exatamente no momento em que ele nada, absolutamente nada, vale.
Por isso, aos vermes que souberam esperar e nunca me desprezaram – como fizeram os humanos – e que se nutriram de minha completa nulidade e insignificância o meu mais carinhoso respeito, o meu mais fraternal abraço e a minha mais saudosa lembrança! Isso porque este relato é fruto de minha ida ao outro lado do mistério...
(Um Defunto-Autor)
(Hédimo Jales – Capitão Caverna)
Prof. Djalma Neto: Acabei de ler esse texto no facebook do meu querido professor de ensino médio Hédimo Jales com quem muito me identifiquei naquela época.  Parabéns Capitão Caverna.
 
 
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